A Preservação das Cidades Históricas pela UNESCO

 

Em recentes artigos publicados por Marco D’Eramo na revista Domus 982 e por Michiel van lersel (http://www.domusweb.it/it/opinioni/2014/08/20/urbanicidio_a_fin_di_bene.html e (http://www.domusweb.it/it/opinioni/2014/08/27/l_unesco_non_e_l_isis.html), foi criticada a série de cidades históricas ao redor do mundo que foram tombadas como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO.

 

Segundo Marco D’Eramo, estas cidades, por diversos momentos da história, passaram por diversas mudanças: guerras, doenças, acidentes naturais, e possuíam uma vida urbana muito intensa, pois eram efetivamente centros comerciais e culturais, locais de moradia e trabalho.

 

Na realidade atual, estas cidades se transformaram em cenários, cidades turísticas. Onde antes era local de moradia, se transformou em lanchonetes e lojas de souvenirs.

 

Para D’Eramo, “A sentença de morte para estas cidades é entregue no final de um longo processo burocrático realizado em um edifício em Paris, Fontenoy, no sétimo pavimento. O veredito é uma marca indelével, um ferro em brasa que marca para a cidade para sempre”.

 

Ou seja, ele acredita que ao receber o selo de Sítio do Patrimônio Mundial, emitidos pela UNESCO, a cidade fica paralisada no tempo, intocável, impossibilitando o seu crescimento e evolução, matando a cidade.

 

Existem monumentos que precisam ser defendidos e protegidos. Mas D’Eramo dá exemplos notáveis que devemos analisar: “A UNESCO ficaria aterrorizada em Roma, quando nos séculos 16 e 17, se produziu um pot-pourri admirável da antiguidade, maneirismo e barroco. Graças a Deus o Marais, em Paris não foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade, caso contrário, poderia esquecer o Beaubourg.”

 

“Um equilíbrio deve ser atingido entre novas construções e a preservação. Queremos viver em cidades que incluem museus e obras de arte, não em mausoléus com subúrbios dormitórios anexos. É uma pena desumana passar a vida nos quartos de hóspedes em um museu sem fim. Na cidade de San Gimignano, na Itália, dentro de suas paredes, não há um açougueiro, um verdureiro, nem um padeiro genuíno.

 

Depois de um certo horário do dia, a cidade inteira fica deserta, tudo se fecha, pois os donos dos estabelecimentos comerciais vivem hoje no subúrbio em condomínios modernos. “Dentro das muralhas da cidade, tudo tornou-se um conjunto de filmes de fantasia medieval.”

 

No Laos, o centro histórico de Luang Prabang sofreu o mesmo destino: todos as suas casas convertidas em hotéis e restaurantes. Os habitantes do Laos vivem à quilômetros de Phothisalath Road. Da mesma forma foi transformada a cidade do Porto, em Portugal.

Para D’Eramo, muitas cidades estão na fila, esperando para serem embalsamadas, da mesma forma que alguns países aspiram sediar os Jogos Olímpicos, sem saber da consequente ruína que irá arrastá-los para o abismo, como a Grécia.

 

Ao voltarmos nossos olhos para o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, estamos vivendo um momento único, onde a cidade inteira virou um canteiro de obras, impulsionado pela Copa do Mundo, pelos Jogos Olímpicos e pelo crescimento da economia. A revitalização da Zona Portuária finalmente saiu do papel. Muitas construções estão sendo demolidas, para que possa haver uma evolução da cidade, uma revitalização das áreas há muito tempo degradadas, melhorias no transporte, e no turismo.

 

Porém a pressão política e comercial é muito grande. Por um lado os políticos querendo ganhar votos, por outro lado as grandes construtoras, que mandam no país, querem benefícios para obter lucros com as novas construções. Em nome desta evolução, tudo é possível de ser destruído.

 

Muitas comemorações estão sendo feitas com a demolição da perimetral. Realmente os novos espaços urbanos estão incríveis, voltamos a ter uma vista privilegiada perdida da Baía de Guanabara. Mas isso não aconteceria se começássemos a demolir a maioria dos prédios do centro da cidade ? Aonde está o morro do Castelo ? A cidade não era muito mais agradável há 500 anos atrás ? Seria impossível uma intervenção na zona portuária sem a demolição da perimetral? E aonde estão os empreendimentos residenciais tão necessários e importantes para garantir a vida da nova Zona Portuária ?

 

Ao mesmo tempo encontramos diversos imóveis tombados pela cidade, muitos sem nenhum valor arquitetônico relevante, onde em prol de uma preservação não se pode nem ao menos trocar um revestimento de uma parede interna. Estes sim estão morrendo, da mesma forma que as cidades italianas.

 

Em outro artigo publicado logo posteriormente ao de Marco D’Eramo, Michiel van Iersel contraria o seu artigo, apontando exageros e atribuindo a culpa do congelamento das cidades aos próprios governantes, e que o selo atribuído pela UNESCO nada mais do que confirma o caráter turístico e cenográfico que já existia.

 

Marco d’Eramo nasceu em Roma em 1947. Ele foi um pesquisador de física teórica na Universidade de Roma por dois anos, e depois estudou sociologia em Paris, com Pierre Bourdieu. Por muitos anos ele foi correspondente especial do jornal “Il Manifesto” nos EUA. Seu livro “The Pig e and the Skyscraper” ,Chicago, a História do nosso futuro, Verso, Londres / Nova York 2002, já foi traduzido para vários idiomas e é utilizado em inúmeros cursos de planejamento urbano.

 

Michiel van Iersel (1978) é um urbanista e curador de exposições em Amsterdã. É cofundador da não ficção e fundação de pesquisa Falha Arquitetura. Foi nos anos recentes curador de mostras e festivais, e já trabalhou em projetos de pesquisa e publicações na intersecção entre arte, urbanismo, patrimônio cultural e tecnologia. Ele é coautor de uma publicação do Centro do Patrimônio Mundial, em Paris. Em 2013, foi nomeado o primeiro curador do lado de fora do Word Heritage Pódio de Amsterdã, para a qual escreveu um panfleto intitulado Copland com Patrimônio Mundial Raphel Agora.

 

 

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