Marco Milazzo & Associados

 

Archive for the ‘urbanismo’ Category

MuMa – Museu do Meio Ambiente

Monday, May 17th, 2010

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Projeto desenvolvido para o concurso nacional para o Museu do Meio Ambiente do Rio de Janeiro – MuMa no complexo do Jardim Botânico. Autores: André Thurler, Marco Milazzo, Tom Caminha e Rafael Koury.

MuMa - Museu do Meio Ambiente

MuMa - Museu do Meio Ambiente

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O Partido

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Diante da possibilidade de intervir em um conjunto histórico da magnitude do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, sobretudo em sua entrada, aberta ao público e marcada por arquiteturas de valor histórico e artístico, consideramos fundamental estabelecer uma relação harmônica entre o conjunto pré-existente e as novas intervenções. Assim, a integração com a paisagem se converte em um partido adotado no projeto, tanto na arquitetura quanto no paisagismo, valorizando as interfaces com o Jardim Botânico e os prédios históricos. Desta forma, é atribuído à paisagem o papel de protagonista do espaço, onde as edificações se inserem de forma sóbria, demonstrando suas características particulares sem competir por atenção.

MuMa - Museu do Meio Ambiente

MuMa - Paisagismo

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A Escala

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Considerando a situação das duas intervenções arquitetônicas, cada qual ao lado de um edifício histórico preservado, procuramos estabelecer uma escala tal que a dimensão das novas construções não competissem com a dos seus vizinhos, estabelecendo uma hierarquia que valoriza o conjunto histórico. Esta relação de escala ocorre sem prejuízo da qualidade arquitetônica das novas edificações nem do programa estabelecido. Através de recortes no terreno e pavimentos semi-enterrados, o impacto visual dos edifícios foi amenizado sem reduzir o espaço necessário para as atividades do Museu.

MuMa - Museu do Meio Ambiente

MuMa - Prédio do Anexo

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A Linguagem

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Entendemos que a Arquitetura deve revelar o seu período histórico de construção, através da técnica, uso dos materiais e, sobretudo, da linguagem resultante do projeto. Deste modo, nossas propostas seguem uma linha projetual contemporânea, tanto no paisagismo quanto na arquitetura, respeitando o conjunto histórico sem procurar reproduzi-lo. Tal postura permite o entendimento claro dos diferentes períodos que deram forma ao espaço, sem estabelecer ruptura ou estagnação do processo histórico, nem destacar um determinado estilo arquitetônico sobre os demais. O mesmo se aplica ao novo paisagismo, que propõe uma continuidade com o jardim preservado, incluindo elementos contemporâneos, como os canteiros de aço patinado e os desenhos geométricos, inspirados no modernismo brasileiro. Além da coerência com o período contemporâneo, também procuramos estabelecer uma relação entre as novas arquiteturas, que demonstre certa unidade projetual. Esta unidade foi obtida, apesar das diferenças impostas pelas particularidades de cada edifício, em função de qualidades tectônicas semelhantes. A arquitetura assume, então, um caráter expressivo, que se integra ao conjunto de forma harmônica e elegante.

MuMa - Praça Baixa

MuMa - Praça Baixa

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A Sustentabilidade

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Consideramos sustentabilidade um conceito ainda em formação, atravessado por diferentes matrizes discursivas, que resultam em estratégias projetuais variadas. Deste modo, descartamos qualquer norma ou modelo engessado de arquitetura “verde” e orientamos nosso projeto segundo três eixos fundamentais para o seu equilíbrio sócio-ambiental: Eficiência Construtiva, Conforto Ambiental e Integração com a Paisagem. Apesar do forte apelo dos projetos ditos “ecológicos”, optou-se por não fazer deste conceito a questão única da proposta, uma vez que a relação harmônica com o meio ambiente é apenas uma de várias condições primordiais da boa arquitetura.

MuMa - Museu do Meio Ambiente

MuMa - Prédio Auditório/Administração

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O Jardim

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O traçado do paisagismo se integra ao conjunto histórico através da continuidade dos fluxos, minimizando o contraste entre o pré-existente e o projetado. A leitura dos diferentes períodos históricos se dá pela variação dos materiais e pelas linhas dos novos canteiros. Assim, fica preservado o jardim da residência Pacheco Leão em harmonia com o novo paisagismo, de modo que ambos são valorizados.

Além da linguagem contemporânea adotada no paisagismo, outra preocupação do projeto foi com a permeabilidade das superfícies. Os materiais adotados como piso ajudam na drenagem das águas pluviais, evitando empoçamento e permitindo que a chuva se infiltre no ponto onde está caindo. A redução do volume de água captado pelo sistema de drenagem urbano contribui para evitar enchentes em outras áreas da cidade. Além disso, parte da água deverá ser coletada e armazenada em uma cisterna, onde poderá ser utilizada para a jardinagem ou até mesmo para o reuso nos edifícios.

A opção por elevar determinados canteiros se justifica pelo aproveitamento de parte da terra retirada para a construção dos novos prédios. Estes canteiros, emoldurados por uma borda de aço, se convertem em elementos escultóricos que complementam o paisagismo. Optamos por uma vegetação exuberante e variada, aproveitando o acervo botânico do próprio Jardim e as árvores transplantadas, criando uma ambiência agradável e adequada ao clima.

Em função da já grande quantidade de árvores de médio e grande porte existentes na área de intervenção o projeto não prevê o plantio de novos exemplares evitando prejudicar a visibilidade das edificações históricas. Portanto, a proposta mantém seu foco no redesenho dos pisos, canteiros e vegetação de forração.

MuMa - Museu do Meio Ambiente

MuMa - Paisagismo

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O Museu

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O acesso principal ao Museu do Meio Ambiente permanecerá na porta frontal do Edifício Histórico onde serão localizados a Recepção, Foyer, Bilheteria e Ponto de Informações. Nos ambientes laterais com alteração de uso permitida, será inserida a área de Guarda Volumes e a área para Acolhimento dos Grupos Escolares. O acesso de pessoas com dificuldades de locomoção será feito pelo elevador existente, localizado nos fundos da edificação. A partir deste ponto, o visitante é direcionado para as áreas de exposição até o segundo pavimento e de lá para o Anexo, através de uma passarela. No Anexo o circuito segue de forma descendente pelo edifício terminando em um nível semi-enterrado, aberto para uma área de exposição ao ar livre. Neste espaço intersticial foi realizado um recorte no terreno, criando uma praça que une a saída do Anexo à Cafeteria e a Loja do Museu, localizados no porão do prédio histórico.

O projeto do anexo resulta de um estudo volumétrico que priorizou a relação com o Edifício Histórico, respeitando sua proporção. A partir da área de projeção máxima se verificou que o programa exigido para a área de exposição poderia se desenvolver em pouco menos de três pavimentos inteiros. Em seguida, foi feita uma regularização da área de projeção, dando maior afastamento ao edifício em relação à pérgula e algumas árvores do arboreto. A criação do pavimento semi-enterrado reduz o impacto vertical da construção e nivela pontos estratégicos dos dois prédios, permitindo uma ligação através de passarela. Finalmente, o terceiro pavimento foi dividido entre a área de exposição e um terraço voltado para o jardim histórico, o que ameniza ainda mais o impacto visual do edifício frente ao seu vizinho no trecho onde essa relação se torna mais evidente.

Propomos um sistema de estrutura metálica, material reciclável, com pilares locados apenas nas laterais do edifício e vigas transversais altas. Desta forma, é criado um espaço entre forro e laje de piso para que se desenvolvam as instalações prediais de forma independente da conformação dos ambientes internos. A planta livre, associada a uma variação do pé-direito nos diversos pavimentos garante a flexibilidade do projeto museográfico, que conta com espaços de alturas e dimensões diferentes.

Entendemos que devido à sua natureza audiovisual o museu pressupõe uma arquitetura hermética que permite um maior controle da iluminação em seu interior. Portanto, a partir de um volume fechado, foram criadas apenas aberturas pontuais com o intuito de criar visadas específicas da paisagem circundante de modo a incluí-la na própria exposição. Propõe-se ainda a instalação de painéis móveis de treliças de madeira (referência aos muxarabins / muxarabim) sobre estas aberturas criando assim um recurso de controle de incidência solar. O sistema de vedação com placas duplas de madeira deixa espaço para um material isolante termo-acústico, complementando a adequação climática.

MuMa - Prédio Anexo - Vista das Escadas

MuMa - Prédio Anexo - Vista das Escadas

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Auditório e Administração

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Seguindo o partido de prevalência da paisagem pré-existente em relação às novas intervenções, o projeto do auditório e administração respeita a escala da residência Pacheco Leão, não ultrapassando 6,5m de altura. Assim, o bem tombado pode ser observado de forma mais adequada, inclusive do terraço da nova edificação. Isto foi conseguido com a criação de um pavimento semi-enterrado, contíguo a um recorte no terreno onde se desenvolve um anfiteatro ao ar livre. O paisagismo abraça a arquitetura, definindo as linhas do recorte de forma a criar uma continuidade com o restante do projeto.

Outro fator que contribui para a redução da escala é a disposição de rampas ao redor do prédio eliminando a necessidade de elevador e seu maquinário. Da mesma forma, o acesso ao pavimento semi-enterrado e aos níveis rebaixados do terreno é feito por rampa acessível e escadas. Esta solução garante o livre fluxo de pessoas com dificuldades de locomoção por todo o edifício.

As rampas são protegidas por uma estruturar metálica modular com placas alternadas de madeira (opacas), brises (também de madeira) e canteiros verticais, criando um invólucro dinâmico para o edifício e controlando a incidência solar direta. Todos os ambientes internos do prédio podem ser iluminados naturalmente e possuem ventilação cruzada, reduzindo gastos com energia elétrica.

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Mais imagens:  0102 - 03 - 04 - 05 - 06 - 07 - 08 - 09 - 1011 - 12 - 13 - 14

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Stadskantoor Rotterdam

Wednesday, October 21st, 2009
OMA Stadskantoor

OMA Stadskantoor

O Office for Metropolitan Architecture (OMA), em colaboração com Werner Sobek e a ABT, ganhou a concorrência para o Stadskantoor Rotterdam, um novo prédio para a prefeitura que vai acomodar os serviços municipais, escritórios e unidades residenciais . O vencedor foi anunciado esta manhã pelo vereador da cidade Hamit Karakus.

O projeto, liderado por Reinier de Graaf e Rem Koolhaas, foi escolhido entre cinco propostas por escritórios de arquitetura da Holanda após um período de consulta pública e deliberação de um júri de especialistas, que comentou: “O design da OMA foi a combinação perfeita de inovação e adequação para o contexto envolvente. ”

O OMA concebeu um edifício modular com unidades repetidas gradualmente afastado-se da rua, se levantando em dois picos irregulares. A Composição do edifício em pequenas células cria uma forma complexa quando vista de Coolsingel, uma das principais vias de Roterdã, e permite a sutileza e a adaptabilidade.

O inovador sistema estrutural de Stadskantoor gera o máximo de eficiência e versatilidade, tanto na construção quanto no programa: As unidades podem ser adicionadas ou mesmo desmontadas da estrutura, como exige a mudança de construção ao longo do tempo, e pode se adaptar a qualquer espaço de escritório ou residenciais, os outros parâmetros desejados. Terraços verdes em níveis mais elevados oferecem a possibilidade de um apartamento com um jardim no coração de Roterdã.

A construção do conceito de flexibilidade,  juntamente com um clima regulado por ar quente armazenado no verão e lançado no inverno, e vice-versa, bem como a utilização de isolamento translúcido na fachada do prédio de vidro – permitiu que o OMA cumprisse a exigência do edital do projeto de Stadskantoor, tornando o edifício mais sustentável, na Holanda.

Reinier de Graaf, comentou: “Ao invés de posar como superlativo próxima da cidade, o projeto para o Stadskantoor é parcialmente um prédio, em parte, uma condição urbana. O projeto tenta conectar as edificações adjascentes da Câmara Municipal, dos Correios e o Stadstimmerhuis. Através de uma ambigüidade intencional, a massa mergulha na cidade com diversos períodos arquitetônicos, absorvendo as escalas e estilos de seu contexto imediato. “

Arquitetura Híbrida I

Saturday, September 19th, 2009

Arranha-céus de Uso Misto

Texto Adaptado da revista a+t 31 de Martin Musiatowicz

http://www.aplust.net/pdf_revistas/VGubEgOH_a+t%2031.pdf

O vigor da arquitetura híbrida e a arte do “mixing”

Um grande número de projetos sendo construídos, especialmente pelo mercado imobiliário especulativo, requerem múltiplas funções a serem alojadas em conjunto. A concentração de várias atividades em uma estrutura, como descrito por Steven Holl, coloca pressões sobre a arquitetura e tem uma capacidade de “… dilatar e deformar um edifício de uma única função” (1).

O atual boom na alta densidade dos edifícios tem sido alimentada em parte pela explosão econômica, pelos valores astronômicos dos terrenos, e pelo aumento das zonas econômicas emergentes, em particular a China, ao longo dos últimos vinte anos. A tendência crescente entre os arquitetos em lidar com este problema tem resultado no ressurgimento do edifício híbrido, principalmente na solução denominada “soma de todas as partes”, a concentração e a hibridação é cada vez mais entendida como uma forma de dar vida à construção, a seus usos individuais, e ao seu tecido urbano envolvente.

Linked Hybrid - Steven Holl Architects

Linked Hybrid - Steven Holl Architects

A História dos Prédios Híbridos

A idéia dos prédios híbridos de usos mistos não é nova. Ao longo da história, a densidade, o valor dos terrenos e da sobreposição de funções foram intrinsecamente ligados. Na antiguidade, as cidades-estados desenvolviam fronteiras e muros, a fim de defender e separar os civilizados dos selvagens (2). As principais formas de circulação e transporte de mercadorias por grande parte da população na época teria sido a pé. Assim, programas como o local de trabalho, comércio e habitação foram localizados, ou no mesmo espaço ou empilhados em cima uns dos outros e, em muitos casos, havia pouca ou nenhuma distinção entre salas ou funções. Com a disputa pelos espaços, a cidade confinada significava que qualquer expansão ou construção necessitava de fusões e sobreposições, e conseqüentemente, alta densidade. As funções, ao invés de serem localizadas em regiões isoladas da cidade, preenchiam qualquer espaço vazio disponível, e uma vez que as cidades cresceram, se formaram uma única entidade híbrida constantemente mudando e evoluindo.

Com o aumento da mobilidade e do longo alcance dos sistemas de defesa a cidade rompeu seus limites, se dispersando, e a partir deste ponto, a metrópole moderna evoluiu, expandindo-se em estruturas individualizadas por toda a paisagem (3). A expansão que se desenvolveu abriu o acesso a uma nova divisão de terras, permitindo maiores e mais acessíveis propriedades fundiárias. As terras mais baratas não só removeram a pressão para que os programas compartilhassem o espaço e maximizassem a utilização das terras, mas também apresentou uma estratégia de delimitação e controle de grandes áreas. A dispersão de assentamentos e postos militares avançados foi um método dos Estados expandirem suas extensões de terra constantemente através da ocupação, um bom exemplo é o Império Romano. Mais tarde, a revolução da mobilidade trazida pela Era Industrial facilitou o advento da moderna teoria social de planejamento, promovendo a segregação das funções de vida, trabalho, compras e fabricação – não só em edifícios individuais, mas também em zonas exclusivas nas cidades.

A forma da cidade passou a ser definida por um planejamento funcional que ordenasse o controle de doenças, a poluição e principalmente o valor das terras.

Até o lançamento do catálogo de Joseph Fenton, em 1985, os edifícios híbridos tinham sido ignorados como um tipo único de edifício, geralmente agrupados em “mixed-use”. Fenton argumentou que havia uma nítida diferença entre as construções híbridas e de utilização mista, onde os programas individuais se relacionam e começam a compartilhar seus usos.

Torre Spina - ÁBALOS+SENTKIEWICZ, LEÓN LÓPEZ DE LA OSA

Torre Spina - ÁBALOS+SENTKIEWICZ, LEÓN LÓPEZ DE LA OSA

O conceito de hibridização veio da genética e refere-se à reprodução cruzada de espécies diferentes. Enquanto no passado, os usos foram muitas vezes combinados em uma única estrutura, por exemplo, a loja-casa ou a ponte habitada, como a Ponte Vecchio, o edifício híbrido em grande escala não aparece até o século XIX (4). A escalada dos valores dos terrenos nos centros das cidades exigiram novas formas de desenvolvimento. Estruturas de aço e a invenção do elevador, em meados do século, revolucionaram a construção e permitiu que as estruturas se verticalizassem assinalando a ascensão do arranha-céu. Com essas ferramentas, os arquitetos e construtores transferiram sua abordagem para a necessidade de construções especulativas com o máximo de volume e área útil para tornar mais valioso os bens imobiliários. Sua incapacidade para preencher as novas torres com uma única utilização levou a uma combinação de programas e através deste o surgimento dos edifícios híbridos(5).

O catálogo de Fenton apresenta uma seleção de exemplos americanos (e ele defende que eles têm evoluído fora das condições da metrópole americana) agrupando-as em:
Híbridos adaptados a volumetria imposta pela malha urbana da cidade;
Híbridos Enxertados que expressam cada programa como um volume distinto dentro da forma resultante do edifício;
Híbridos Monolíticos, onde os elementos programáticos são incluídos em um envelope contínuo (6).
Os edifícios híbridos se diferenciam de outros tipos de mega construções por se ajustarem a malha urbana e estarem contidos dentro de um único edifício.

Não podemos entretanto desprezar a influência dos códigos urbanísticos nesta evolução. A criação das normas de zoneamento de Nova York em 1916 limitaram a mistura de ‘usos funcionalmente incompatíveis’ em edifícios e em certas partes da cidade, designando bairros estritamente residenciais, retardando a evolução dos edifícios híbridos (7). Versões desta política foram adaptadas e estão ainda em uso em muitas cidades de todo o mundo,como as cidades brasileiras .

Atualmente, o aumento do valor dos terrenos, unida a um abandono de ideais de segregação urbana, assim como os avanços nas tecnologias ambientais, promoveram alterações nas leis, e agora promovem a mistura de funções, em uma tentativa de dinamizar a cidade.

Scala Tower - BIG

Scala Tower - BIG

O Retorno do Híbrido

A nova ordem profetizada pelo modernismo na realidade não foi capaz de, na prática, lidar com a complexidade da vida real. As críticas do pós-modernismo à esta situação trouxeram um  ressurgimento do interesse pela experimentação de novos programas e pelo desafio aos modelos tipológicos predominantes.

Mais importante ainda, o pensamento pós-estruturalista criou uma situação que permitia os conceitos dialéticos, e neste caso, as funções passam a co-existir e a se interligarem.

Vários escritores e arquitetos têm se ocupado nas últimas três décadas a explorar as implicações do programa na forma arquitetônica.

Rem Koolhaas, em especial, identificou as condições únicas dos Arranha-céus de Manhattan em seu livro “Nova York Delirante” (1978). Diferentemente do relato zoológico dos híbridos de Fenton, Koolhaas identificou uma qualidade genérica do arranha-céu, que permite uma quase infinita combinação de programas co-existirem em pisos separado (8).

O Downtown Athletic Club, que também aparece no catálogo de Fenton de edifícios híbridos, fascina Koolhaas, por sua “serenidade” e forma monolítica exterior escondendo o melhor do “congestionamento urbano” e é como “… um condensador social construtivista: uma máquina de gerar e intensificar as formas de relações humanas (9).”

Se olharmos para quase qualquer cidade do mundo de hoje, existe um constante fluxo na programação do tecido genérico da cidade, que permite estas justaposições e cujo desenho é quase impossível de controlar.
Estas primeiras observações têm repetidamente aparecido no trabalho de Koolhaas e seu escritório, o Office for Metropolitan Architecture (OMA). Nos experimentos como o Hyperbuilding (1996), que foi concebida como uma nova cidade dentro de um edifício ou mais recentemente em outros projetos de torres especulativas como em New Jersey. E embora tenha previamente defendido as grandes construções como “o melhor” da arquitetura, por si só a escala não é o pré-requisito para a concentração, e a crítica do OMA às tipologias usuais e a indeterminação dos programas foram introduzidas em seus edifícios menores e até em parques como foi o caso em seus projetos para a competição Parc de la Villette, em Paris e também para o Downsview Park em Toronto.

Nos últimos anos o interesse em técnicas híbridas voltam a surgir, em grande parte facilitadas por uma série de fatores econômicos e políticos. Em primeiro lugar, o boom imobiliário global impulsionado pelo crescimento econômico da China e do Médio Oriente criou um clima em que desenvolvedores estão cada vez mais interessados em maximizar as áreas construídas, buscando o melhor aproveitamento dos terrenos combinando múltiplos programas. No entanto, ao contrário de períodos anteriores, como na década de 1980 e no “dot com boom”, o ambiente é menos receptivo à especulação por ter aprendido as lições dos quilômetros quadrados de espaço para escritórios vazios que apareceram na recessão que se seguiu (10).

Atualmente, os inquilinos são procurados nas fases iniciais do processo de design (o chamado “venda na planta”), permitindo a captação de dinheiro antes da construção, permitindo que os grandes clientes possam estar envolvidos no processo de concepção, ao invés de simplesmente alugando contêineres vazios que deve adaptar-se mais tarde. Esta necessidade de criar espaços específicos está levando os arquitetos a resolver o programa ao invés de projetar o máximo de flexibilidade possível como antes.

Há também os desenvolvedores cada vez mais interessado no “estilo de vida”, eles entendem que a complexidade é inerente à cidade e à mistura de usos diferentes devem ser utilizados para estimular o que de outro modo seria apenas uma colagem de usos diversos.

Juntamente com isso, foram adicionadas recentemente as políticas destinadas a construção de novos bairros ou regenerar bairros existentes que exigem que os desenvolvedores incluam o uso misto e os programas públicos. Nesse sentido, o geógrafo Jane Jacobs enfatiza o papel central da diferenciação e da diversidade em tornar as cidades “que parecem cidades” (11), de modo que a heterogeneidade e os congestionamentos, que também fascinam Koolhaas, sejam usados na promoção de empreendimentos habitacionais novos, destacando a diversidade de experiências, práticas e pessoas. E, embora, infelizmente, estas imagens muitas vezes sejam apenas anúncios de panfletos e propagandas, os arquitetos têm a capacidade de defender idéias de usos mais distintos e de novas combinações de programas.

Juntamente com o desenvolvimento especulativo, os preços dos terrenos e dos custos de construção obrigaram muitas instituições cívicas, também afetadas por cortes de gastos que muitos governos estão sofrendo, a buscar novas formas de financiamento (12). Isto conduz normalmente a combinar usos tradicionais, como um museu ou biblioteca, com espaço comercial.

Às vezes basta simplesmente inserir alguma espaço para atividades de vendas ou eventos  acompanhando o programa principal para aumentar os lucros. Em outros casos mais extremos pode chegar ao combinar o museu, com lojas, habitações e escritórios para obter um rendimento máximo, ou simplesmente tornar o projeto viável. Neste sentido, o Seattle Art Museum projetado pela Allied Works é um bom exemplo: ele combina o museu com a sede de um banco, que financiou a operação através da construção de espaço flexível que pode acomodar outras utilizações no futuro. Um caso semelhante é o projeto Scala Tower, em Copenhague, do escritório BIG, que combina uma nova biblioteca pública com hotéis, lojas e escritórios.

Estes exemplos onde algumas aplicações beneficiam outras, para além das implicações espaciais da mistura de programas, estabelecem uma estreita relação entre cultura e comércio, indo para o plano financeiro. Essas grandes combinações de escala têm outra peculiaridade: cada programa é obrigado a ceder uma parcela de sua individualidade.

Como resultado, instalações públicas alojando até agora icônicos edifícios e monumentos ao redor da cidade começam a formar parte do tecido da cidade. Ao adicionar uma loja ou um café em um museu, ele não perde o seu caráter como um ícone, adicionando um edifício de 60 andares para uso com salas comerciais, hotéis e escritórios, o museu passa a fazer parte de um grande edifício icônico.

Muitos dos edifícios recentes ou propostas que prevêem a hibridação de usos ou qualquer tipo de “química” poderia ser ajustado para as categorias descritas por Fenton em seu catálogo. No entanto, esta classificação se deve mais à sua formalização final de estratégias de design. Por este motivo, deve-se classificar os híbridos com base em uma série de tendências que poderiam ser utilizadas como estratégia para lidar com a diversidade e densidade.

Bundle Tower - MASS STUDIO Bundle Tower – MASS STUDIO

Híbrido compacto

Esta é a tendência para reduzir a expressão formal de cada programa, e neste sentido não dominam a expressão moderna da função, como ocorre nos enxertados híbridos de Fenton. Esta abordagem permite a independência entre a imagem externa do edifício e sua organização interna programática está presente em todas as escalas, desde pequenas a grandes edifícios.

Cidades dentro de cidades


Este é o caso dos prédios híbridos que unem todos os usos de uma cidade inteira. Impulsionada pelo ritmo da construção no Oriente Médio e Ásia-Pacífico, os grandes edifícios fora dos centros urbanos hospedam um grande número de funções suficientes para torná-los auto-entidades independentes, necessário devido à sua localização remota. A necessidade de projetá-los com a diversidade presente na cidade os convertem em microorganismos ou edifícios-cidades. Além disso, quando o território circundante é um ambiente hostil como um deserto, estes edifícios apresentam um espaço protegido para os seus habitantes como se fazia na antiga cidade murada.

Existem inúmeros exemplos teóricos de tais híbridos, como o OMA Hyperbuilding ou utopias como a Sky City 100, Takenaka Corporation, um arranha-céu de 1.000 metros, habitada por 135.000 pessoas. Mais recentemente, e em construção, o híbrido de Steven Holl em Shenzhen e Pequim caberia dentro desta estratégia.

Estruturas Fundidas

Uma conseqüência dos altos edifícios arranha-céus é a complexidade de sua estrutura, cargas de vento muito forte e infra-estrutura necessária para prestar o serviço e permitir o acesso público. A torre única exige, cada vez mais, elevadores mais e mais rápidos, mais tubulações e instalações, o que é mais importante, uma estrutura capaz de sustentá-la. Por esta razão, os núcleos estruturais necessário consomem mais e mais espaço, fazendo com que os projetos sejam economicamente inviáveis. Uma solução para este problema é a deformação do núcleo estrutural e da pele exterior para triangular as cargas. Este é o método utilizado pela SOM para levantar a torre Burj Dubai, que será superior a 800 metros de altura.

Outra opção consiste em  agrupar  vários elementos ou torres, que juntos formam um único sistema. É o caso da Praça Museum, em Louisville, do escritório REX, que também usa essa estratégia para maximizar o uso de pequenas parcelas do terreno, diminuindo sua área no pavimento térreo, conectando as torres no 23° andar. Se cada parcela fosse utilizada individualmente, reduziria a escala, tanto estrutural quanto economica.

Justaposição Seccional e Indeterminação Espacial

Parece haver uma tendência geral em reduzir a programação específica das edificações, aumentando o seu nível de incerteza, levando à sobreposição de programas sobre o mesmo espaço. Segundo Koolhaas, a planta baixa era a protagonista quando apareceram os arranha-céus, enquanto hoje o papel principal são dos cortes e das perspectivas feitas pela computação gráfica tridimensional. Assim, a tradicional separação vertical, o resultado do empilhamento de plantas, está dando lugar à distribuição do mesmo programa em diferentes níveis, como nos projetos da OMA para a Biblioteca de Jussieu e da Biblioteca Pública de Seattle que, embora não combinem diferentes usos urbanos no interior, abrigam uma certa programação hibrida.

Paisagens Integradas

Estimulada em parte por incentivos do governo e em parte pelo interesse no espaço coletivo, muitos híbridos incorporam a esfera pública, adicionando a superfície da cidade à sua estrutura ou distribuído verticalmente em lugares altos, jardins e galerias. Assim, tanto o espaço público como a paisagem são hibridizados com outros usos urbanos.

É o caso do Office DA Kuwait Sports Clube de Tiro, onde um grande deck articula com muitos programas e espaços públicos em torno do edifício. Outros exemplos são baseados em uma série de volumes conectados ou paisagens construídas e espaços vazios, como o Projeto Arquitetônico Moussaka em Atenas, do JDS Arquitetos, ou Asane, em Bergen, do escritório Transform. Enquanto isso, o edifício Scala, do escritório BIG em Copenhague critica a “mudez” exterior das torres monolíticas e mistura a fachada do prédio com a rua e a praça adjacentes através de diversos terraços na fachada, o que torna a pele do edifício uma continuidade do espaço público.

Porque estamos interessados em tais tendências e no ressurgimento de híbridos na construção? Em primeiro lugar, as condições que permitiram e demandaram a evolução dos edifícios híbridos ocorreram simultaneamente com a constante renegociação e evolução do espaço público em relação à cidade, desde a cidade fortificada que protegia os civilizados do inexplorado, até o formalismo dos espaços públicos da cidade metropolitana, e até o atual momento, em uma nova definição de espaço público, disperso em um mundo interconectado.

Em alguns casos, esta evolução é paralela à crescente escassez de terra, a subida dos preços e a necessidade de colocar novos modelos de uso do solo urbano, combinando programas aparentemente, ou tradicionalmente incompatíveis. Em outros exemplos, a densidade e a diversidade que criam os híbridos podem ser utilizados como uma ferramenta para a regeneração dos centros, que devido ao crescimento dos subúrbios e da legislação restritiva foram abandonados, como os distritos de escritório lutando para sobreviver, cheia de edifícios com pouca ou nenhuma relação com o ambiente. A intensificação criada pela mistura de usos e do conjunto de funções públicas e privadas, e que integra o espaço urbano envolvente em edifícios novos, facilita a reintrodução da vida cívica nestes centros vagos. Contra o modelo funcionalista de um tamanho único para todos, essa visão considera a complexidade da cidade moderna que favorece que a condição híbrida exista, não só a nível de macro-programa, que reúne várias organismos distintos, mas na sua progressão de espaços individuais à escala urbana.

The Edge - RCR ARQUITECTES

The Edge - RCR ARQUITECTES

Notas

1 Holl, S. Foreword to Pamphlet Architecture no. 11: Hybrid Buildings, Princeton Architectural Press, New York, 1985, p.1
2 Nijenhuis, W. ‘City Frontiers and Their Disappearance’, Architectural Design, v. 64, n. 3/4, 1994, p.14
3 Nijenhuis, W. pp. 15-16
4 Fenton, J. ‘Hybrid Buildings’ in Pamphlet Architecture no. 11: Hybrid Buildings, Princeton Architectural Press, New York, 1985, p. 5
5 Fenton, p. 5
6 Fenton, p. 7
7  http://www.nyc.gov/html/dcp/html/zone/zonehis.shtml
8 Koolhaas, R. Delirious New York, Thames and Hudson, UK, 1978
9 Koolhaas, R. p. 128
10 Canary Wharf in London being a case in point
11 Jacobs, J. Hybrid Highrises, 2005, online papers archived by the Institute of Geography, School of Geosciences, University of Edinburgh
12 See: Newhouse, V., Towards A New Museum, New York: The Monacelli Press, 1998

Shenzhen Crystal Island

Monday, June 29th, 2009
Shenzhen Crystal Island

Shenzhen Crystal Island

Beijing / Rotterdam, 17 junho 2009 – O Office for Metropolitan Architecture (OMA), em colaboração com o escritório de Shenzhen Urbanus, recebeu o primeiro prémio no concurso para um novo grande centro cultural, estação intermodal de transportes e parque público no coração da cidade de Shenzhen, sul da China. O projeto, liderado pelo sócio do OMA Ole Scheeren, foi selecionado entre 32 concorrentes por um júri internacional.

A cidade de Shenzhen ganhou o status de Cidade do Design, atribuido pela Unesco em 2008, e pretende que na Crystal Island seja formado o Centro Criativo de Shenzhen (Shenzhen Creative Center): um ponto focal para a industria da criação em frente da famosa prefeitura de Shenzhen.

A Shenzhen Creative Center consiste em parques e jardins, ocupado com pavilhões e pequenas construções – “Vilas Design” – que formam um micro urbanismo vibrante e atividade pública. O terreno é englobado por um “Anel Conector” de pedestres elevado, uma via urbana unindo multiplos elementos e infraestruturas.

No subsolo, um sistema de conectores liga o sistema de trens existente com um novo sistema, metrô, ônibus, taxis, áreas comerciais, prefeitura e o Creative Center, e ao mesmo tempo funciona como áreas para diversas atividades.

No coração destes dois sistemas está o “Shenzhen Eye”, um novo marco para a cidade. Ao invés de um objeto, um vazio esférico simboliza o “Espaço da Imaginação” – aberto, desocupado, uma zona de criatividade que concentra a energia e a visão do futuro de Shenzhen.

O Shenzhen Creative Center introduz um espaço que incentiva a urbanidade sem densidade e suporta a agregação através de atividades interligadas. Anteriormente dispersas, as indústrias da criatividade serão integradas através de uma infraestrutura conectada e cultivada em uma paisagem de multiplicidade, permeabilidade, e aberta para com atividade criativa.

A colaboração da OMA e Urbanus inclui Ole Scheeren, Rem Koolhaas e Moong Yan, juntamente com uma equipe liderada por OMA Associates Dongmei Yao e Anu Leinonen.

Imagens: Shenzhen Crystal Island © OMA / Ole Scheeren